Texto e fotos Valdemir Cunha

Dona Rita só se anima em visitar a cidade grande quando precisa renovar sua coleção de panelas. Aos 46 anos, e com sobrenome bem brasileiro, Pereira da Silva, ela diz não sentir necessidade de sair de casa. “Tenho tudo o que preciso aqui.” Esta poderia ser mais uma história prosaica de uma mulher da zona rural, não fosse ela moradora do vilarejo mais a oeste do Brasil, encravado nos confins do Parque Nacional da Serra do Divisor, no Acre. Não adianta procurar no mapa. A vila de dona Rita não consta neles. Nem nome oficial tem. A “cidade grande”, no imaginário dessa dona de casa, é Cruzeiro do Sul, segunda maior do estado, com cerca de 80 mil habitantes. Para chegar até lá são 12 horas – 80 quilômetros – descendo o rio Moa. Depois, mais 40 quilômetros de estrada a partir do modesto porto de Japiim, principal referência para a população ribeirinha
que vive às margens do Moa. Caso dona Rita queira ir à capital, Rio Branco fica a 720 quilômetros. Outras 12 horas de viagem a partir de Cruzeiro do Sul pela BR-364, estrada que fica intransitável de novembro a março por conta das chuvas.

Não é difícil entender por que a população do médio e alto rio Moa teima em permanecer nesse lugar tão remoto. A região é exuberante, floresta amazônica com influência andina devido à proximidade com o Peru. O isolamento deixou essas terras praticamente intocadas e seu ecossistema intacto. Essa riqueza pode ser notada pelo inventário feito pelo Instituto Chico Mendes. São 102 espécies de mamíferos, 485 de aves, 101 de anfíbios, 229 de aranhas… e a lista segue. Dos 8.430 quilômetros quadrados do parque nacional – seis vezes a área da cidade de São Paulo –, apenas 3% foram desmatados. Obra dos madeireiros peruanos que, ao lado dos traficantes de cocaína, representam o principal problema da serra do Divisor.

A região começou a ser povoada a partir de 1879, durante o ciclo da borracha. Com o final desse ciclo econômico, por volta de 1914, as pessoas foram ficando por ali. Sobreviviam da caça, da pesca, do extrativismo vegetal e das pequenas roças. Coisa que continuam fazendo até hoje. Atualmente são 5
mil moradores dentro do parque – cerca de dois mil na região norte, onde vive dona Rita.

O rio Moa é a única via de acesso a essa população. Navegando por ele se vê todo tipo de embarcação de pequeno e médio porte. Elas levam de vacas a botijões de gás, passando por famílias inteiras espremidas entre mantimentos e carga. O Moa é “pequeno” se comparado aos rios mais conhecidos
da Amazônia. De margem a margem ele varia entre 30 a 60 metros, dependendo do trecho e da estação do ano. Na seca as praias que surgem viram pequenos campos de futebol. Também funcionam como playgrounds naturais para as crianças.

Poucos quilômetros acima da casa de dona Rita, já no alto rio Moa, a Amazônia ganha contornos diferentes. A influência andina invade a floresta e eleva seu relevo a altitudes que podem chegar aos 650 metros. Vista do alto, dos helicópteros do Ibama e da Polícia Federal que patrulham a região à caça de madeireiros e traficantes de drogas, essa misturas de morros com a floresta amazônica impressiona. O tapete verde ganha ondulações suaves que vão se acentuando conforme a proximidade com o Peru.

Quando o GPS avisa ao piloto que está sobrevoando a linha da fronteira entre Brasil e Peru, um morro se
destaca – o Peito de Moça. Ele se eleva bem acima da floresta e o nome já indica sua forma. Para os pilotos ele
é o sinal que a partir dali começa o território peruano. Procurar gente nessa floresta, mesmo sobrevoando bem rente as copas das gigantescas árvores é como procurar agulha no palheiro. A única coisa que se destaca é o rio Moa, serpenteando pela selva.

Por baixo, cruzando o Moa de barco, a mata também surpreende. A influência andina estreita as margens do rio
e forma cânions de até 10 metros de altura emoldurados por árvores monumentais. O viajante tem aqui a nítida sensação de como eram as expedições fluviais do marechal Rondon (1865-1958) e tantos outros exploradores por essas terras do oeste selvagem.

Para dona Rita nada disso importa. Em sua aldeia, ela tem de tudo. A água vem do rio. Mandioca, abóbora, feijão, cana-de-açúcar, banana e milho dão nas rocinhas perto da vila – tudo permitido e vistoriado pelo Instituto Chico Mendes. A carne ela consegue com as criações e um pouco de caça – também permitida apenas para moradores. Escola? Até tem. Na verdade, uma professora leciona por ali formando as crianças no ciclo básico. Televisão tem também. O vizinho de dona Rita tem uma preto-e-branco que funciona ligada no gerador e faz a alegria da vila.

Nos últimos tempos, até telefone chegou. E se transformou no vizinho “mais importante” de dona Rita. Trata-se de um orelhão, desses amarelinhos, hoje cada vez mais raros nas grandes cidades. Funciona via satélite e ganhou até um cercadinho de arame para as vacas e os cavalos não estragarem o orgulho da vila. É, com toda a certeza, o telefone público mais a oeste do Brasil. De qualquer forma, não tente ligar para dona Rita em dias de chuva. Com raios e trovões caindo, o orelhão geralmente deixa de funcionar. Igualzinho à BR- 364, que para de novembro a março.